sic transit
correspondência de MUNDO¶ Praga, 10 de outubro de 2004. Querida, Não entendo direito o que dizem na TV, mas parece que esse início de outono promete um frio absurdo para pessoas tropicais como nós. E um pouco de solidão também. Estou morando no 302, terceiro andar dum prédio aqui em Pankrác, um bairro adorável, residencial, próximo a estação de metrô e já não vejo a movimentação usual de turistas que passavam por aqui no verão. O frio chega, as pessoas migram para lugares mais quentes, assim como os pombos da praça que repentinamente também sumiram. Sinto um vazio, falta de gente para conversar em português. Semana passada fui ao famigerado castelo de "Praha" e não tinha ninguém para tirar fotos de mim. Fotografias parecem cartões postais sem rostos conhecidos dentro dela. Eu caminho com minhas músicas sozinho pela cidade e observo coisas que nunca prestei atenção quando morava aí em São Paulo. O céu é lindo. As pessoas são tão diferentes, mas tão iguais. Sorrisos acolhedores. Na esquina da minha quadra, tem um pub onde uns senhores sempre estão bebendo cerveja, dizem que a daqui, é a melhor do mundo. De vez em quando saem acordes de jazz e blues de dentro do bar. Tão agradável quanto Veneza, fascinante como Paris. Daí, eu tenho sensações boas. Esqueço o tédio, a solidão e me toma conta um sentimento de alívio. Um alívio de ter saído daí, de ter fugido de você quando terminamos. Agora sei, que tinha um mundo inteiro para descobrir e você me sufocava. Fazia-me sentir satisfeito com esse pouco mundo médio que conhecia. Sabe, amor, nunca deveríamos nos sentir satisfeitos. Faz mal. Nos impede de crescer. Atrofia a alma. Obrigado por desistir. Obrigado por tudo. De'kuji, como diriam por aqui. Com amor, |
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